| Carla Louro Entra-se na casa pelo pátio (2026) (rev. Sandra Mendes)
entra-se na casa pelo pátio
como no verso cá fora o muro branco desenha a sombra que vagarosamente vai mudando o dia de lugar dentro da casa desenham-se os verbos e os espaços têm o nome das pausas estar comer dormir a luz rasante anuncia no silêncio a chegada da tua voz e os pássaros cantam o teu nome entra-se na casa pelo verso e conjuga-se a vida |
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2026-04-16
Entra-se na casa pelo pátio (p. 67)
2026-04-15
Entra-se na casa pelo pátio (p. 43)
| Carla Louro Entra-se na casa pelo pátio (2026) (rev. Sandra Mendes)
quando precisares
lembra-te que a vida é um caminho e o medo uma erva daninha lembra-te que há medos que são cardos que há medos que picam que há medos que escondem as amoras silvestres quando te esqueceres recorda que as palavras são caminhos e os medos também que os cardos são flores e que as ervas daninhas podem ser a tua caixa de primeiros socorros |
2026-04-14
Entra-se na casa pelo pátio (p. 41)
| Carla Louro Entra-se na casa pelo pátio (2026) (rev. Sandra Mendes)
OS CORPOS
I
as casas são como os corpos das pessoas
adivinham o tempo as casas são como os nossos corpos cada parte uma memória cada órgão uma função quando o tempo muda os corpos sabem alguns os corpos que sabem que o tempo vai mudar dizem por dentro as casas que sabem que o tempo vai mudar mexem por dentro e as madeiras falam |
2026-04-13
Entra-se na casa pelo pátio (p. 34)
| Carla Louro Entra-se na casa pelo pátio (2026) (rev. Sandra Mendes)
eu nunca soube desenhar bem
os meus riscos foram sempre mais incertos que todos os outros foi por isso que passei a desenhar com as palavras desenhava com elas o que via e depois emoldurava-as na arquitectura também era assim pensava os espaços com palavras e desenhava-os com as emoções escritas nos esquissos foram sempre as palavras que construíram todas as casas onde vivi |
2026-04-12
Entra-se na casa pelo pátio (p. 33)
| Carla Louro Entra-se na casa pelo pátio (2026) (rev. Sandra Mendes)
há caras que se amarrotam
há caras que se amarrotam quando falam e amarrotam as palavras quando as dizem e as palavras assim amarrotadas não se ouvem da mesma forma chegam com vincos algumas têm vincos com muitos anos há caras amarrotadas que se contorcem para dizerem palavras passadas a ferro e esticam-se quando falam e mesmo assim esticadas não conseguem dizer palavras sem vincos há caras com vincos que dizem palavras vincadas palavras que vincam as coisas que interessam que chegam a nós com o cheiro da roupa passada com a paciência que o tempo demora a passá-las |
2026-04-11
Entra-se na casa pelo pátio (p. 29)
| Carla Louro Entra-se na casa pelo pátio (2026) (rev. Sandra Mendes)
coloco lado a lado
organizadas em linhas verticais e horizontais as imagens que encontro ao acaso encostadas no arquivo da memória selecciono as que situam os dias e recuperam o nome dos lugares o rosto das pessoas o som das coisas é uma tarefa lenta que requer usar o tempo numa outra rotação a memória é uma peça que enferruja e à vezes pára |
2026-04-10
Entra-se na casa pelo pátio (p. 24-25)
| Carla Louro Entra-se na casa pelo pátio (2026) (rev. Sandra Mendes)
a nossa vida são papéis papéis com números
números de identificação todos diferentes a nossa vida são só números os números das horas os números das portas as portas do tempo o nosso tempo são papéis papéis com horas horas sem tempo como é que se chama o nosso nome como é que se chama só com letras procuro o meu nome e não o encontro mas sei de cor os números da minha vida sei todos os meus números de cor e lembro-me a nossa vida são só números papéis com números números em código com espaços entre eles a nossa vida são só códigos códigos com letras palavras com passe as palavras são chaves códigos em chave de acesso a nós dentro de um computador onde é que está a nossa vida onde é que está só connosco |
2026-04-09
Entra-se na casa pelo pátio (p. 20)
| Carla Louro Entra-se na casa pelo pátio (2026) (rev. Sandra Mendes)
procuro o peso certo das palavras
as palavras têm de ter o peso certo no ar quando são ditas por isso a voz interessa por isso o som da voz e o peso da voz no ar interessam quando se dizem as palavras as pessoas zangadas gritam palavras sem peso com o peso todo na voz as nuvens zangadas gritam palavras com o peso todo do céu digo as palavras em voz alta dentro da cabeça e peso-as para quando escrevo as deixar nas folhas com o peso certo no lápis |
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