2015-01-31

Cidade Suspensa

Penim Loureiro
Cidade Suspensa (2014)

Outro presente de Natal de 2014, desta vez da minha maninha.
Uma banda desenhada que marca o regresso de um colega arquitecto (que não conheço...) a esta forma de expressão, depois de um longo interregno em que se dedicou à sua actividade profissional em exclusivo, na área da reabilitação de edifícios e arqueologia.
E nos conta uma história em jeito de diário (com efabulações autobiográficas) dos encontros e desencontros de três amigos de infância e juventude, das raparigas com que se cruzaram ou acompanharam, e das suas viagens de evasão ou regresso.
Destacam-se os belos desenhos aguarelados, onde se denota a formação académica e profissional do autor, com representação de edifícios e fragmentos de cidades.
Também muito interessante o modo como inclui apontamentos gráficos da imaginação ou da nossa memória cultural que dão outra dimensão à narrativa.

Um, Nenhum e Cem Mil (p.100-101)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"No entanto, eu tinha horror aos olhos que me olhavam, risonhos e seguros; tinha horror àquelas mãos que me tocavam, na certeza de que eu era como os seus olhos me viam; tinha horror a todo aquele corpo que me pesava nos joelhos, confiante no abandono que me fazia de si, sem a mais remota suspeita de que não se dava realmente a mim e que eu, apertando-a nos braços, não apertava naquele corpo uma mulher que me pertencia totalmente, mas uma estranha a quem não podia dizer de modo algum como era porque, para mim, ela era justamente como eu a via e tocava: esta, assim com estes cabelos e estes olhos e esta boca, como no fogo do meu amor lha beijava; ao passo que para a outra, a minha, no seu fogo tão diferente do meu e incomensuravelmente longínquo, dado que, para ela, tudo, sexo, natureza, imagem e sentido das coisas, pensamentos e afectos que lhe formavam o espírito, recordações, gostos e até o contacto da minha áspera cara com a sua face delicada, tudo, tudo era diferente. Dois estranhos, assim unidos - horror! -, estranhos não só um para o outro, mas cada qual para si mesmo, naquele corpo que o outro abraçava.
Vocês nunca experimentaram este horror, eu sei; porque estreitaram na vossa mulher, sempre e apenas o vosso mundo, sem se aperceberem de que ela abraça em vocês o seu mundo, que é um outro, impenetrável. E contudo, para sentirem este horror, bastaria que pensassem um momento, sei lá!, numa coisa sem importância, uma coisa que vos agrade e não lhe agrade a ela: uma cor, um sabor, uma opinião, algo que não vos fizesse pensar superficialmente apenas numa diferença de gostos, sensações e opiniões; os olhos dela, enquanto vocês a olham, não vêem em nós, e como os vossos, as coisas tal como vocês as vêem, e o mundo, a vida, a realidade das coisas como são para vocês, como vocês as tocam, não são para ela, que vê e toca uma realidade diferente nas mesmas coisas e em vocês mesmos e nela, sem vos poder dizer como, para ela, é essa realidade, porque para ela é aquela e não pode imaginar que possa ser outra para vocês."

2015-01-30

Carmina Burana

Carl Orff
Carmina Burana: Cantiones profanæ cantoribus et choris cantandæ comitantibus instrumentis atque imaginibus magicis (1935-36)

Esta é bem conhecida... pelo menos em parte.
Por isso, para conhecer na totalidade, o convite para a ouvir integralmente.

Fortuna Imperatrix Mundi: 01: O Fortuna; 02: Fortune plango vulnera; I – Primo vere: 03: Veris leta facies; 04: Omnia Sol temperat; 05: Ecce gratum; Uf dem anger: 06: Tanz; 07: Floret silva; 08: Chramer, gip die varwe mir; 09: a) Reie; b) Swaz hie gat umbe; c) Chume, chum, geselle min; d) Swaz hie gat umbe (reprise); 10: Were diu werlt alle min; II – In Taberna: 11: Estuans interius; 12: Olim lacus colueram; 13: Ego sum abbas; 14: In taberna quando sumus; III – Cour d'amours: 15: Amor volat undique; 16: Dies, nox et omnia; 17: Stetit puella; 18: Circa mea pectora; 19: Si puer cum puellula; 20: Veni, veni, venias; 21: In trutina; 22: Tempus est iocundum; 23: Dulcissime; Blanziflor et Helena: 24: Ave formosissima; Fortuna Imperatrix Mundi: 25: O Fortuna (reprise)

Um, Nenhum e Cem Mil (p.97)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"- Louco! Louco! Louco!
Porque eu tinha querido demonstrar que podia, mesmo para os outros, não ser aquele que toda a gente pensava."

2015-01-29

Hotel California

Eagles
Hotel California (1976)

Hoje a sugestão vai para um clássico do rock.
O mais célebre álbum dos Eagles e que faz o seu nome figurar na história da música.
E que inclui a música com o mesmo título, na qual se canta a frase you can check out anytime you like, but you can never leave.

01: Hotel California; 02: New Kid in Town; 03: Life in the Fast Lane; 04: Wasted Time; 05: Wasted Time (Reprise); 06: Victim of Love; 07: Pretty Maids All in a Row; 08: Try and Love Again; 09: The Last Resort

Um, Nenhum e Cem Mil (p.96)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"(...) Eu sentia-me como que distante, desiludido, humilhado. Apesar de tudo, sentia-me atraído pelo silêncio da multidão. Como quando se pega fogo a um montão de lenha e por um momento não se vê nem se ouve nada e depois, aqui um cavaco, ali uma acendalha, saltam, faíscam e, por fim, todo o braçado crepita com línguas de fogo no meio do fumo."

2015-01-28

The Space Between Us

Craig Armstrong
The Space Between Us (1998)

Foi por este álbum que conheci Craig Armstrong, por recomendação da minha maninha.
Uma colecção de excelentes músicas, entre as quais uma com a voz de Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins, na música This Love, e outras que são versões de músicas compostas noutras paragens.

01: Weather Storm: 02: This Love; 03: Sly II; 04: After the Storm; 05: Laura's Theme; 06: My Father: 07: Balcony Scene (Romeo and Juliet); 08: Rise; 09: Glasgow; 10: Let's Go Out Tonight; 11: Childhood; 12: Hymn
Weather Storm (Massive Attack); Sly (Massive Attack); Kissing You (Des`Ree); Let's Go Out Tonight (The Blue Nile)

Um, Nenhum e Cem Mil (p.88)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"- Sim, tudo reside nisto - pensava, nesta prepotência. Cada qual quer impor aos outros o mundo que tem dentro de si, como se esse mundo existisse fora de si; quer que todos vejam à sua maneira e não sejam senão como ele os vê."

2015-01-27

The Staight Story - Banda Sonora

Angelo Badalamenti
The Staight Story (1999)

Este fim-de-semana cruzei-me com esta banda sonora.
Do filme de David Lynch ficou-me uma forte memória, mas não me lembrava da música, embora esta também possa ter tido um papel na fixação das lembranças que tenho dele.
Gostei de ouvir, agora, este outro encontro daquele realizador com Angelo Badalamenti, numa música muito suave e intimista.
Para ouvir com atenção.

01: Laurens, Iowa; 02: Rose's Theme; 03: Laurens Walking; 04: Sprinkler; 05: Alvin's Theme; 06: Final Miles; 07: Country Waltz; 08: Rose's Theme (Variation); 09: Country Theme; 10: Crystal; 11: Nostalgia; 12: Farmland Tour; 13: Montage

Um, Nenhum e Cem Mil (p.63)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"Tempo, espaço: fatalidades. Sorte, fortuna, acaso: tudo armadilhas da vida. Querem ser? É isto. Em abstracto, não se é. (...)"

2015-01-26

Aqua

Edgar Froese
Aqua (1974)

Faleceu, a semana passada, Edgar Froese um dos fundadores do grupo Tangerine Dream.
Em sua memória, a sugestão de hoje vai para o seu álbum de estreia a solo, em paralelo com a música desenvolvida para o grupo alemão, e que, ao que parece, teve como objectivo ter uma fonte extra de rendimento para poder desenvolver novos instrumentos para os Tangerine Dream.
Parte o homem, fica a sua obra, para ouvir.

01: Aqua; 02: Panorphelia; 03: NGC 891; 04: Upland

Um, Nenhum e Cem Mil (p.58)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"Foi um instante; foi a eternidade. Senti em mim todo o terror das fatalidades sem remédio, das coisas que não se podem alterar: a prisão do tempo; o nascer agora e não antes ou depois; o nome e o corpo que nos são dados; a cadeia das causas; o sémen lançado por aquele homem: meu pai sem o querer; o meu vir ao mundo desse sémen, involuntário fruto desse homem; ligado àquele ramo; expresso por aquelas raízes."

2015-01-25

Um, Nenhum e Cem Mil (p.56)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"(...) A história da minha família na minha terra: nunca pensava nisso; mas essa história, para outros, estava em mim; eu era o último dessa família e tinha a sua marca em mim, no meu corpo, e sabe-se lá em quantos hábitos e modos de agir e de pensar em que nunca tinha reflectido, mas que outros reconheciam claramente em mim, na minha maneira de andar, de rir, de cumprimentar. Julgava-me um homem na vida, um homem qualquer que vivesse no dia-a-dia uma vida ociosa, no fundo, embora cheia de curiosos e inconstantes pensamentos. Não, não; para mim podia ser um qualquer mas, para os outros, não; para os outros, possuía muitas determinações decisivas, que nunca me havia atribuído nem criado e em que nunca reparara; e até a possibilidade de acreditar que era um homem qualquer, ou seja, o meu próprio ócio que julgava ser mesmo meu, aos olhos dos outros, não me pertencia: fora legado por meu pai, dependia da fortuna de meu pai, e era um ócio terrível, porque meu pai..."

2015-01-24

Um, Ninguém e Cem Mil (p.39)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"Se exterior a nós, para mim e para si, existisse uma senhora realidade minha e uma realidade sua, e se essas realidades fossem iguais, imutáveis. Não existe. Existe, em mim e para mim, uma realidade minha: aquela que eu dou a mim próprio. E existe uma realidade sua, em si e para si. E essas realidade nunca serão a mesma realidade para si e para mim.
E então?
Então, amigo, é preciso consolarmo-nos com isto: a minha não é mais verdadeira que a sua e ambas duram apenas um momento."

2015-01-23

Concerto de Ano Novo 2015

Firmação
Concerto de Ano Novo (2015)

E ainda com o concerto fresquinho na memória, aqui vai a mais recente participação musical das minhas pequenas, nos respectivos coros.
Foi no concerto de Ano Novo, que se realizou no fim-de-semana passado, e que também contou com a exibição das Orquestras de Cordas e de Cordas e Teclas, dos alunos dos cursos profissionais da Canto Firme, de Tomar.
Os coros actuam no princípio e no fim.

Uma pequena nota de reconhecimento para o autor dos vídeos que aqui passei, Joaquim Diogo.

Classe de Iniciação do Firmação: Girassol; Dinossauro; Um Amigo;
Orquestra de Cordas do Curso Vocacional Canto Firme: Sarabande (Handel); Joy to the World (Handel);
Hélder e Giovanna: Largo do Concerto para Alaúde e Orquestra, transcrição para Acordeão e Piano (A. Vivaldi);
Orquestra de Cordas e Teclas do Curso Profissional Canto Firme: Fot Three (Alberto Bocchino); Minueto da Sinfonia em Dó Maior (W.A. Mozart); Standchen Op. 957 n.4 (F. Schubert); Libertango (A. Piazzola);
Coro Juvenil do Firmação: I Dream a Dream, de "Les Miserables" (Claude-Michel Schonberg); When You Believe, de "Prince of Egypt" (Stephen Schwartz); Canto do Povo de Algum Lugar (Caetano Veloso, arr. R. Garrido); We Are The World (Lionel Richie e Michael Jackson); Gloria in Excelsis Deo (Anónimo).

Um, Ninguém e Cem Mil (p.38)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"(...) Mas o problema é que você, meu caro, nunca saberá nem lhe eu lhe poderei nunca dizer como se traduz, em mim, aquilo que você me disse. Não falou turco, não. Eu e você usámos a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos nós de que as palavras, em si, sejam vazias? Vazias, meu caro. Ao dizê-las a mim, você preenche-as com o seu sentido; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente preencho-as com o meu sentido. Pensámos que nos entendíamos; de facto, não nos entendemos."

2015-01-22

Stormhorse

In The Nursery
Stormhorse (1987)

Entre os dois trabalhos dos In The Nursery que já aqui divulguei, situa-se este que sugiro hoje...

(O vídeo prolonga-se até aos 79', mas a música acaba perto dos 48')

01: Tempest; 02: Subito Regal - Miracle of the Rose I; 03: The Empty Fortress; 04: Hunting Theme; 05: Hit; 06: Portamento; 07: Stormhorse; 08: Nightshade; 09: Leggiero - World of the Newborn; 10: Dolente; 11: Counterpart; 12: Miracle of the Rose II; CD bonus tracks (Trinity 12"): 13: Blind Me; 14: Elegy (Reprise); 15: Elegy

Um, Ninguém e Cem Mil (p.31)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"(...) Será porventura a consciência algo de absoluto que possa bastar-se a si própria? Se estivéssemos sós, talvez fosse. Mas, nesse caso, meus senhores, não haveria consciência. Infelizmente existo eu e existem vocês. Infelizmente.
E que significa, então, dizerem que têm a vossa consciência e que isso vos basta? Significa que os outros podem pensar de vocês e julgar-vos como lhes aprouver, isto é, injustamente, porque entretanto vocês estão tranquilos e confortados por não terem procedido mal?
Oh, por favor, e se não são os outros que vos dão essa segurança, esse conforto, quem vo-lo dá?
Vocês mesmos? Como?
Ah, eu sei como: acreditando obstinadamente que, se os outros estivessem no vosso lugar e lhes acontecesse o mesmo que a vocês, todos teriam procedido da mesma forma, nem mais nem menos."

2015-01-21

Koyaanisqatsi

Philip Glass
Koyaanisqatsi (1983)

Esta é a primeira vez que aqui trago Philip Glass.
É engraçado que a primeira vez que ouvi falar nele foi por uma recomendação dada por uma professora que tive na faculdade, que não admirava por ai além, e por isso não fui procurar ouvir...
Só mais tarde, nem sei já particularizar quando, é que vim a ouvir, e a apreciar!
O que também me levou a pensar se o juízo que tinha feito dessa professora seria justo...
Bem, aqui fica a sugestão para ouvir uma peça deste autor (que não foi por onde comecei a conhecer a obra dele).

01: Koyaanisqatsi; 02: Organic; 03: Cloudscape; 04: Resource; 05: Vessels; 06: Pruit Igoe; 07: The Grid; 08: Prophecies



Também é a banda sonora de um filme muito particular, feito para apreciar imagens em sequência ao som desta banda sonora instrumental.
Embora não o tenha visto recentemente, não deixa de ser oportuno fazer, aqui e agora, referência ao filme, passando o seu trailer.

Godfrey Reggio
Koyaanisqatsi (1982)

O filme não tem diálogos, mas inclui a palavra hopi koyaanisqatsi, traduzida como "vida fora de equilíbrio" ou "um estado de vida que pede outro modo de se viver". "Koyaanisqatsi" é entoada no início e no fim do filme num tom sombrio e sepulcral pelo baixo Albert de Ruiter sobre a música de Philip Glass. Três profecias hopi são cantadas por um coro no movimento "Prophecies", e são traduzidas nos créditos finais:
"Se extrairmos coisas preciosas da terra, convidaremos ao desastre."
"Perto do Dia da Purificação, haverá teias de aranha de um lado ao outro do céu."
"Um contentor de cinzas pode um dia ser atirado do céu, o qual pode queimar a terra e ferver os oceanos."

Um, Ninguém e Cem Mil (p.23)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"Não me deu mais tréguas a ideia de que os outros viam em mim alguém que não era eu tal qual me conhecia; alguém que eles apenas podiam conhecer olhando-me de fora com olhos que não eram os meus e me davam um aspecto que me seria sempre estranho, estando embora em mim, sendo até para eles, o meu (um «meu», portanto, que não era para mim!); uma vida na qual, embora sendo para eles a minha, eu não podia penetrar.
Como suportar esse estranho dentro de mim? Esse estranho que era eu próprio para mim? Como não o ver? Como não o reconhecer? Como ficar para sempre condenado a trazê-lo comigo, em mim, à vista dos outros e fora da minha vista?"

2015-01-20

Ohm Sweet Ohm



Kraftwerk
música do álbum Radio-Activity (1971)

Ohm Sweet Ohm, um jogo de palavras para a célebre expressão Lar, Doce Lar, com a unidade de medida de resistência eléctrica.
Tenha ou não a ver, também vejo o lar como o sítio onde é preciso vencer uma certa resistência para dar ou ter acesso.
E, vencida essa resistência, ganhar o privilégio de conhecer a intimidade de alguém ou de partilhar com alguém a nossa.
Convido-vos a ouvir várias interpretações desta música, para melhor conhecer os Kraftwerk (na sua intimidade?).

12: Ohm Sweet Ohm
Ohm Sweet Ohm: Londres (Roundhouse), 10 de Outubro de 1976
Ohm Sweet Ohm: Munique (Zirkus Krone), 12 de Junho de 1981
Ohm Sweet Ohm: Londres (Tate Modern) 7 de Fevereiro de 2013

Um, Ninguém e Cem Mil (p.19-20)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"Queria estar só de uma forma verdadeiramente insólita, nova. Ao contrário do que vocês pensam, isto é, sem mim e justamente com um estranho à minha volta.
Parece-vos já um primeiro sinal de loucura?
Talvez por não terem reflectido bem.
Não nego que a loucura pudesse já estar em mim; mas peço-vos que acreditem que esta é a única maneira de se estar verdadeiramente só.
A solidão já não está com vocês; está sempre sem vocês e só é possível com um estranho à vossa volta: lugar ou pessoa que seja, que vos ignoram totalmente, que vocês ignoram totalmente, de maneira que a vossa vontade, o vosso sentimento fiquem suspensos e perdidos numa incerteza angustiante e, cessando toda a afirmação de vocês próprios, cesse a própria intimidade da vossa consciência. A verdadeira solidão está nesse lugar que vive por si e que para vocês não tem rosto nem voz, e por isso nesse lugar vocês são o estranho."

2015-01-19

Animals

Pink Floyd
Animals (1977)

Outro daqueles discos que não sei dizer quando comecei a ouvir ou quantas vezes ouvi.
Que faz parte das minhas memórias de juventude e mais recentes também.
Que foi também, em parte, objecto de uma sugestão do meu irmão mais velho.
E que aqui vai, para lembrar ou ouvir de novo...

01: Pigs on the Wing 1; 02: Dogs; 03: Pigs (Three Different Ones); 04: Sheep; 05: Pigs on the Wing 2

Um, Ninguém e Cem Mil (p.12)

Luigi Pirandello
Uno, Nessuno e Centomila (1926)
(trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)


"(...) E só então, pensando que o espanto que se seguiu à indignação era mágoa e humilhação, a minha mulher, para me consolar, aconselhou-me a não me preocupar muito com isso porque, afinal de contas, e apesar dos meus defeitos, eu continuava a ser um belo homem.
Desafio quem quer que seja a não se irritar, ao receber como generosa concessão aquilo que como direito lhe fora antes negado. Esbocei um venenoso «obrigado» e, certo de não haver motivo nem para me atormentar nem para me sentir humilhado, não dei qualquer importância àqueles pequenos defeitos, mas (...) ter tido de esperar pelo casamento para reparar que os tinha defeituosos.
- Ó espanto! Pois não é sabido que as mulheres são feitas de propósito para descobrirem os defeitos dos maridos?"

2015-01-18

Relatório Minoritário (p.84-85)

Philip K. Dick
Minority Report (1956)
(trad. Saul Barata)


"- Cada relatório era diferente dos outros dois - concluiu Anderton. - Cada um era único. Mas dois deles concordavam num ponto. Se deixado à solta, eu mataria Kaplan. Foi isso que criou a ilusão de que havia um relatório maioritário. Na verdade, não passava disso mesmo: era apenas uma ilusão. Donna e Mike previram o mesmo evento, mas em duas dimensões do tempo completamente distintas, duas ocorrências em situações em tudo diferentes. Donna e Jerry, o chamado relatório minoritário, e mais a metade do relatório maioritário estavam errados. Dos três, Mike foi o único certo porque, depois dele, não apareceu outro relatório que o invalidasse. Isto resume a situação.
Angustiado, Witwer começou a correr ao lado do camião, a sua cara simpática e loura sulcada de preocupação. - Será que vai acontecer outra vez? Será necessário refazer o sistema?
- Só é possível se for satisfeita uma determinada condição - respondeu Anderton. - O meu caso foi único porque eu tive acesso aos dados. Pode voltar a acontecer, mas só ao próximo Comissário da Polícia. Por isso, veja o terreno que pisa.
Sorriu ligeiramente, sentindo um certo conforto ao olhar para a expressão preocupada de Witwer. Ao lado dele, os lábios de Lisa apertaram-se, pôs a mão de fora e apertou a do jovem.
- É bom que mantenha os olhos bem abertos - disse Anderton para o jovem Witwer. - Pode acontecer em qualquer altura."

Relatório Kinsey

Bill Condon
Kinsey (2004)

Esta sexta-feira fiquei a ver um filme na televisão - o que actualmente é raro acontecer....
Um filme sobre a vida de Alfred Kinsey, autor de Sexual Behavior in the Human Male (1948) e Sexual Behavior in the Human Female (1953), conhecidos como o Relatório Kinsey.
A história de um cientista que se dedicava ao estudo de vespas e acaba por se virar para um "ninho de vespas" como foi (é) o estudo da sexualidade humana numa sociedade puritana como a americana (e não só lá) onde o assunto era (e continua a ser em muitos aspectos) tabu.

Alfred Kinsey: [Kinsey está a dar a sua primeira aula] Who can tell me which part of the human body can enlarge a hundred times. You, miss?
Female Student: [indignada] I'm sure I don't know. And you've no right to ask me such a question in a mixed class.
Alfred Kinsey: [divertido] I was referring to the pupil in your eye, young lady.
[a classe ri]
Alfred Kinsey: And I think I should tell you, you're in for a terrible disappointment.

2015-01-17

Relatório Minoritário (p.71)

Philip K. Dick
Minority Report (1956)
(trad. Saul Barata)


"- Uma vez que o diga, vai perguntar a si próprio a razão por que não pensou nisso. Como é óbvio, vou ter de cumprir a profecia do relatório que vai ser tornado público. Tenho de matar Kaplan. É a única maneira de eles não poderem desacreditar-nos.
Witwer ouvia-o, estupefacto. - Mas o relatório minoritário foi ultrapassado.
(...)
Anderton empunhou a arma de guerra que Fleming lhe tinha atirado para as mãos. - Usarei este pistolão.
- E não vão agarrá-lo antes de conseguir disparar?
- Por que fariam um disparate desses? Têm em seu poder o relatório minoritário onde se diz que desisti de o matar.
- Então, o relatório minoritário está errado?
- Não - concluiu Anderton -, está absolutamente certo. Mesmo assim, vou matar Leopold Kaplan."

2015-01-16

Concerto de Natal 2014

Firmação
Concerto de Natal(2014)

Em vésperas de novo concerto, este fim de semana, uma proposta ainda fresquinha, o concerto de Natal realizado ainda não há um mês, com a banda filarmónica e os coros onde participam as minhas filhotas.
Para além da sugestão, de pai babado, para ouvir a primeira hora com as interpretações dos grupos que referi, destaco ainda a prestação do Grupo Coral de Óbidos, no final do espectáculo, de que gostei muito, sem desprimor pelas outras actuações.

Banda da Sociedade Filarmónica União Maçaense
Classe de Iniciação do Firmação
Coro Juvenil do Firmação
Grupo de Cantares do Grupo Cultural "Os Maçaenses"
Grupo Coral Nascente (Óbidos)


Relatório Minoritário (p.40)

Philip K. Dick
Minority Report (1956)
(trad. Saul Barata)


"«A existência de uma maioria implica logicamente a existência de uma minoria correspondente.»"

2015-01-15

Nous Sommes Charlie


Excavation

The Haxan Cloak
Excavation (2013)

Hoje a sugestão é da (e para a) minha mana caçula.
Uma proposta para conhecer música nova e interessante.
Vinda de quem me deu a conhecer Coil ou Craig Armstrong, entre outras...
Também pode ser ouvida aqui (o álbum inteiro).

01: Consumed; 02: Excavation (Part 1); 03: Excavation (Part 2); 04: Mara; 05: Miste; 06: The Mirror Reflecting (Part 1); 07: The Mirror Reflecting (Part 2); 08: Dieu; 09: The Drop

Relatório Minoritário (p.35)

Philip K. Dick
Minority Report (1956)
(trad. Saul Barata)


"(...) Chegados àquele ponto, nem ele tinha a certeza de nada. Talvez tivesse sido encurralado num círculo intemporal sem significado, sem motivo e sem começo. Na verdade, parecia quase pronto a admitir que estava a ser vítima de uma fantasia cansativa e neurótica, provocada pela insegurança crescente. Queria entregar-se, sem luta. Sentia os ombros vergados pelo peso da exaustão. Estava a lutar num combate em que não podia vencer, em que o adversário dispunha de todas as vantagens."

2015-01-14

Voices

Vangelis
Voices (1995)

Há músicas de que gostamos porque vão ao encontro de sons e ambientes, ou estímulos, que nos preenchem de satisfação.
Há músicas que nos agradam porque nos ligam a memórias de pessoas ou locais, ou acontecimentos, que nos dão gosto recordar.
Esta música, para mim, cabe nessas duas categorias. Um álbum de Vangelis para ouvir com prazer.

01: Voices: 02: Echoes; 03: Come to Me; 04: P.S.; 05: Ask the Mountains; 06: Prelude: 07: Losing Sleep; 08: Messages; 09: Dream in an Open Place



Editado em 2020.08.28: substituído o vídeo F2N9TmYMejg pela lista de reprodução PLIoFxSeC9xA4kO9waw5MgZ3WzFRMMKR66

Relatório Minoritário (p.15)

Philip K. Dick
Minority Report (1956)
(trad. Saul Barata)


"Com a mais absoluta e esmagadora das convicções, não podia acreditar no que via."

2015-01-13

Absolute Beginners

David Bowie
single do álbum Absolute Beginners: The Original Motion Picture Soundtrack (1986)

Já há algum tempo que estava para publicitar aqui esta música, mas ainda não me tinha disponibilizado para isso.
Mas agora, porque mais uma sugestão do meu irmão mais velho me lembrou, decidi que de hoje não passava.
A música-tema do filme com o mesmo título (que não me lembro de ter visto...) no teledisco oficial, que inclui imagens do mesmo, ambos realizados por Julian Temple.

01: Absolute Beginners

De Profundis, Valsa Lenta (p.66)

José Cardoso Pires
De Profundis, Valsa Lenta (1997)

"Se o sonho é já por si uma memória, sem memória poderá o indivíduo sonhar?"

2015-01-12

Supper's Ready

Genesis
música do álbum Foxtrot (1972)

Por uma conjugação de acasos, queria eu escolher uma música dos Genesis e não sabia bem qual havia de ser, recebi uma mensagem do meu irmão mais velho, precisamente com esta sugestão que hoje aqui faço minha...

06: Supper's Ready: a.: Lover's Leap; b.: The Guaranteed Eternal Sanctuary Man; c.: Ikhnaton and Itsacon and Their Band of Merry Men; d.: How Dare I Be So Beautiful?; e.: Willow Farm; f.: Apocalypse in 9/8 (Co-Starring the Delicious Talents of Gabble Ratchet); g.: As Sure As Eggs Is Eggs (Aching Men's Feet)


Editado em 2016.05.18: Substituído o vídeo j9a6nmcbVPU por szJq1lwnkNw

De Profundis, Valsa Lenta (p.50)

José Cardoso Pires
De Profundis, Valsa Lenta (1997)

"(...) Isto de alguém se recomeçar assim depois de nulo é algo que deslumbra e ultrapassa."

2015-01-11

De Profundis, Valsa Lenta (p.38)

José Cardoso Pires
De Profundis, Valsa Lenta (1997)

"Os nomes. A preocupação de se reconhecer vivo, identificando-se pela identificação dos outros. Durante a travessia das trevas brancas os diálogos com a Edite foram em grande parte uma busca de referências, um inquérito em total inconsciência na tentativa de se recapitular para voltar a ser indivíduo com passado. (...)"

2015-01-10

De Profundis, Valsa Lenta (p.25)

José Cardoso Pires
De Profundis, Valsa Lenta (1997)

"Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção de tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido. (...)"

2015-01-09

Concerto de final de ano

Firmação
Concerto de final de ano (2014)

O final do ano lectivo é altura de mostrar o que se aprendeu, mesmo que a aprendizagem tenha sido uma quase brincadeira.
Assim aconteceu comigo, que durante este ano fui incluído no projecto pedagógico do professor de música da mais nova, que envolveu os pais nas aulas de coro dos filhos pequeninos.
A proposta para hoje é esse espectáculo final que (ainda não o sabia na altura) foi o último com a minha participação. E lá estão as minhas duas filhas, cada uma no seu grupo.

Classe de Iniciação do Firmação
Coro Juvenil do Firmação
Maçanicos

De Profundis, Valsa Lenta (p.23)

José Cardoso Pires
De Profundis, Valsa Lenta (1997)

"(...) Além disso, a circunstância de ter respondido à Edite com o apelido e não com o meu primeiro nome, o mais cúmplice entre marido e mulher e o único que nos era natural, é outro indício do distanciamento provocado pelo golpe de azar que me destituíra de memória e de passado."

2015-01-08

Live on Radio Bremen



Kraftwerk
Live on Radio Bremen (1971)

Um álbum dos Kraftwerk ao vivo, que não faz parte da sua discografia oficial, é a proposta para hoje!
Gravado no Gondel Kino, em Bremen, Alemanha, em 25 de Junho de 1971, durante o período de seis meses em que Ralf Hütter saiu do grupo. Pouco tempo depois, Michael Rother e Klaus Dinger saíram para formar os Neu! e Hütter voltou a juntar-se a Florian Schneider nos Kraftwerk.

01: Heavy Metal Kids; 02: Stratovarius; 03: Ruckzuck; 04: Vom Himmel Hoch; 05: Rueckstoss Gondliere