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2015-03-10

A Obra ao Negro (p.189-190)

Marguerite Yourcenar
L'Oeuvre au Noir (1968)
(trad. António Ramos Rosa, Luísa Neto Jorge e Manuel João Gomes)


"(...) Quase lhe parecia um insulto às infinitas possibilidades da existência ter por tanto tempo renunciado ao mundo aberto de par em par. A actividade do espírito, abrindo caminho ao invés de tudo, podia, por certo, levar a sublimes profundidades, mas tornava impossível o verdadeiro exercício de existir. (...)"

2014-10-28

Palmeiras Bravas | Rio Velho (p.142)

William Faulkner
Wild Palms * The Old Man (1939)
(trad. Jorge de Sena e Ana Maria Chaves)


"(...) Falo de nós. Do amor, se quiser. Porque não pode durar. Não há lugar para ele no mundo de hoje, nem mesmo no Utah. Eliminámos o amor. Levou-nos muito tempo, mas o homem tem muitos recursos e a sua inventiva é ilimitada também, e assim a gente viu-se enfim livre do amor como nos vimos livres de Cristo. (...) Se jesus hoje voltasse, teríamos de crucificá-lo depressa em defesa própria, para justificarmos e preservarmos a civilização que desenvolvemos e sofremos e morremos, guinchando e praguejando de raiva e de impotência e de terror, em dois mil anos de a criarmos e aperfeiçoarmos à imagem do homem; (...)"

2014-10-07

Prosa Completa (p.185)

Woody Allen
Getting Even (1966)
(trad. Jorge Leitão Ramos)


"Podemos, actualmente «conhecer» o universo? Meu Deus, já é tão difícil a gente orientar-se em Chinatown. (...)"

2014-07-02

Kim (p.280-281)

Rudyard Kipling
Kim (1901)
(trad. Monteiro Lobato)


"(...) Descuidares de mim? Criança, eu tenho vivido da tua força, como uma velha árvore viva da cal de um muro novo. Dia a dia, desde que saímos de Shamlegh, tenho roubado o teu vigor juvenil. É por isso, e não por nenhum pecado teu, que estás esfalfado. É o corpo - estúpido corpo - que fala agora - não a alma forte. Coragem. Temos de conhecer os inimigos que combatemos. São filhos da terra - filhos da ilusão. (...) Esqueci-me do estúpido corpo. Se há alguém a ser acusado, esse alguém sou eu. Mas estamos muito perto da Libertação para pensarmos em queixas. Eu poderia louvar-te, mas para quê? Dentro de pouco tempo estaremos livres de qualquer necessidade. (...) - o nosso corpo, o qual, sendo uma ilusão, insiste em equiparar-se à alma, para obscurecer o Caminho e criar a imensa multiplicação de demónios desnecessários.
(...) Há muitas mentiras no mundo e não menos mentirosos; mas mais mentirosos que o nosso corpo, só as sensações do nosso corpo (...)"

2014-06-29

Kim (p.259-260)

Rudyard Kipling
Kim (1901)
(trad. Monteiro Lobato)


"- Se não fosse a minha paixão, nenhum mal teria havido - observou o lama.
- Que mal houve? O Mestre salvou os dois Sahibs de uma morte cem vezes justa.
- A lição não está bem aprendida, chela - advertiu o lama, deitando-se e cobrindo-se enquanto Kim prosseguia no seu trabalho. - A pancada não passou sombra sobre sombra. Foi um mal que despertou em mim, o mal, a cólera, a raiva e o desejo de pagar o mal com o mal. O mal mexeu no meu sangue, revolveu o meu estômago e zumbiu nos meus ouvidos.
Enquanto falava, o velho recebia cerimoniosamente a xícara de chá quente das mãos de Kim.
- Se eu me tivesse mostrado sem paixão - continuou -, o mal da pancada só me teria causado mal ao corpo, uma contusão, um ferimento, coisas ilusórias. Mas o meu espírito não estava abstracto, pois por um momento desejou que o coolie matasse o ofensor. Lutando contra esse desejo, a minha alma sofreu mais que com mil pancadas. Antes que eu repetisse as Bençãos (referindo-se às Beatitudes Budistas) a calma não me voltou. Mas o mal que aquele momento de descuido colocou em mim está perto do termo. A Roda é justa e não se desvia uma linha. Aprendamos a lição, chela.
- A coisa é muito elevada para mim - murmurou o rapaz. - Estou ainda abalado, mas contente do que fiz àquele homem.
- Senti isso, quando repousei com a cabeça no colo do meu chela, depois do incidente. Os meus sonhos foram agitados: o mal em acção numa alma passa para outra. Por outro lado - disse apalpando as contas do rosário - granjeei mérito com a salvação da duas vidas - as dos homens que me ofenderam. Agora preciso ver dentro da Causa das Coisas. O bote da minha alma flutua incerto.
- Durma e fortaleça-se, isso é a verdade.
- Medito. A necessidade de meditação é maior do que o meu chela supõe."