| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"(...) Mas, de cada vez que ardia nas chamas, reerguia-se das cinzas e voltava a nascer. E parece que estamos a fazer a mesma coisa, uma e outra vez, só que nós temos algo que a Fénix nunca teve: sabemos a estupidez que acabámos de fazer. Sabemos todas as estupidezes que temos feito nestes milénios, e enquanto o soubermos e formos tendo à mão coisas que no-lo lembrem, pode ser que um dia deixemos de construir estas malditas piras funerárias e de nos imolarmos nelas. A cada geração que passa vamos acrescentando mais uns poucos que se lembram"
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2022-05-06
Fahrenheit 451 (p.179)
2022-05-05
Fahrenheit 451 (p.173)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"(...) Ele esperava que um dia as cidades se tornassem menos fechadas e deixassem entrar a verdura e a natureza, para que as pessoas se lembrassem que nos foi concedido um pequeno espaço na Terra e que apenas sobreviveremos numa natureza que possa colher de volta o que nos deu, tão facilmente como exalando o seu hálito de vento sobre nós ou enviando-nos o oceano para que tenhamos a noção do nosso verdadeiro tamanho. Dizia que quando nos esquecermos do perto que estamos do mundo natural, este virá buscar-nos uma noite e lembrar-nos-á do quão terrível e real é. (...)"
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2022-05-04
Fahrenheit 451 (p.172-173)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— Todos temos de abandonar algo quando morremos, dizia-me o meu avô. Uma criança, um livro, um quadro, uma casa, um muro ou um par de sapatos. Ou um jardim acabado de plantar. Algo que tenhamos tocado de uma certa forma, para que a nossa alma possa ter um sítio para onde ir quando morrermos. E quando depois olharem para essa árvore ou essa flor que plantámos, é como se olhassem para nós. Não importa o que fazemos, dizia-me ele, desde que mudemos algo por ação das nossas mãos e o transformemos numa extensão de nós assim que o largamos. Dizia que a diferença entre o homem que se limita a aparar a relva e um verdadeiro jardineiro está no toque. O aparador de relva está ali como podia não estar; o jardineiro estará ali uma eternidade."
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2022-05-03
Fahrenheit 451 (p.172)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"(...) Ele fazia parte de nós, e quando morreu tudo o que fazia cessou e não restava ninguém que pudesse fazê-lo como ele. Era um indivíduo. Um homem importante. Nunca recuperei da sua morte. Dou por mim a pensar muitas vezes: 'que peças maravilhosas em madeira nunca foram feitas porque ele morreu, quantas piadas estão ausentes do mundo, quantos pombos nunca conheceram o toque das mãos dele'. Ele moldou o mundo. Fez coisas ao mundo. Na noite em que morreu, o mundo foi espoliado em dez milhões de pequenas ações."
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2022-05-02
Fahrenheit 451 (p.171)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"(...) Não tinham qualquer certeza de que o que carregavam nas suas cabeças fosse garantir futuros amanheceres radiosos de luz pura. Não tinham a certeza de nada a não ser que os livros que armazenavam por trás dos seus olhos serenos estavam prontos, com as páginas ainda por abrir, à espera dos clientes que pudessem aparecer dali a a uns anos para os folhear, com dedos limpos ou mais sujos."
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2022-05-01
Fahrenheit 451 (p.170)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"(...) Mas é isso que a humanidade tem de maravilhoso: por mais desencorajantes e terríveis que sejam as circunstâncias, nunca deixa de voltar a tentar, porque sabe que há coisas que são importantes e merecedoras do risco da tentativa."
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2022-04-30
Fahrenheit 451 (p.169)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"(...) A coisa mais importante que tivemos de enfiar nas nossas cabeças foi que nós não éramos importantes, e que não devíamos ser pedantes, não devíamos sentir-nos superiores a ninguém. Não passamos de sobrecapas de livros, sem outra particular importância. (...)"
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2022-04-29
Fahrenheit 451 (p.162)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"Aqule fogo não ardia; aquecia.
Viu muitas mãos que se aqueciam junto a ele, mãos sem braços, escondidas na escuridão. Acima das mãos, rostos imóveis a que apenas a luz e a ondulação do fogo davam uma aparência de movimento. Não sabia que o fogo podia ter aquele aspeto. Nunca na sua vida fizera ideia de que o fogo, além de tirar, podia dar também. Até o seu cheiro era diferente." |
2022-04-28
Fahrenheit 451 (p.157)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"Viu a lua baixa no céu. A lua, e aquela sua luz especial. Que vinha de onde? Do sol, obviamente. E de onde vinha a luz do sol? Do seu próprio fogo. E o sol lá continuava a arder no céu, dia após dia. O sol e o tempo. O sol e o tempo o fogo. Sempre a arder. O rio transportava-o suavemente. A arder. O sol e todos os relógios da terra. Tudo se juntou numa única coisa na sua mente. Depois de muito tempo a flutuar em terra e daquelas curtas horas a flutuar no rio, soube porque não devia voltar a pôr fogo a nada na sua vida.
O sol ardia todos os dias. Queimava o Tempo. O mundo corria em círculo e girava sobre o seu eixo, e o tempo estava já muito ocupado a queimar os anos e as pessoas, sem precisar da sua ajuda para o fazer. Por isso, se ele queimava coisas junto com os outros bombeiros enquanto o sol queimava o tempo, então tudo estava a ser queimado!" |
2022-04-27
Fahrenheit 451 (p.121)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— (...) Os erros podem ser úteis. Quando era mais jovem, fartei-me de exibir a minha ignorância por aí. E deram-me na cabeça. Quando cheguei aos quarenta, a minha cabeça tinha sido afinada e transformada num excelente instrumento de precisão. Se esconder a sua ignorância, ninguém lhe vai dar na cabeça e nunca irá aprender seja o que for. (...)"
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2022-04-26
Fahrenheit 451 (p.102)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— (...) Os livros também servem para nos lembrar dos loucos e estúpidos que somos. (...)"
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2022-04-25
Fahrenheit 451 (p.99)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— (...) sabe porque é que livros como este são tão importantes? Porque têm qualidade. E o que significa a palavra 'qualidade'? Para mim significa textura. Este livro tem poros. Tem feições. Podíamos analisá-lo ao microscópio, e encontraríamos vida por baixo da lamela, uma profusão de vida em movimento. Quanto mais poros, quanto mais registos dos pequenos pormenores da vida tal como ela é encontramos por centímetro quadrado numa folha de papel, mais 'literário' é o texto. Essa é, pelo menos, a minha definição. O pormenor revelador. O pormenor fresco. Os bons escritores tocam muitas vezes a vida. Os medíocres apenas lhe passam a mão pelo pelo. Os maus violam-na e deixam-na para as moscas. Vê agora porque os livros são temidos e odiados? Porque mostram os poros do rosto da vida. (...)"
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2022-04-24
Fahrenheit 451 (p.98)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— Senhor Montag, está a olhar para um cobarde. Eu vi para onde as coisas se estavam a encaminhar, há muito tempo. E não disse nada. Sou um dos inocentes que podiam ter intervindo quando ninguém dava ouvidos aos 'culpados', mas não o fiz e, assim, tornei-me culpado também. E quando finalmente montaram a estrutura para queimarem os livros, usando os bombeiros, limitei-me a resmungar e deixei-me estar, porque, por essa altura, já não restava mais ninguém com quem pudesse resmungar ou gritar em conjunto. Agora é tarde de mais."
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2022-04-23
Fahrenheit 451 (p.87)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— 'Não é possível determinar o momento exato em que se forma uma amizade. Tal como, quando enchemos gota a gota um recipiente, há sempre uma gota que acaba por fazer transbordar o líquido, também numa série de pequenas amabilidades haverá uma que, por fim, fará com que o coração transborde.'"
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2022-04-22
Fahrenheit 451 (p.76-77)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— (...) Não se constrói uma casa sem pregos e madeira. Se não se quer contruir uma casa, é melhor esconder os pregos e a madeira. Se não se quer um homem politicamente infeliz, é melhor não lhe apresentar dois lados de uma questão para o preocupar: apresente-se-lhe apenas um. Ou melhor: não se lhe apresente nenhum. Que ele se esqueça de que há uma guerra. Ter um governo ineficaz, de mão pesada na repressão e nos impostos é, ainda assim, melhor do que se houver gente a preocupar-se com isso. Paz, Montag. Dê-se às pessoas concursos que elas possam ganhar ao lembrarem-se das letras das canções mais populares ou dos nomes das capitais estaduais ou da quantidade de milho produzido no Iowa no ano passado. Encha-lhes a cabeça de factos não-combustíveis, de tantos factos até se sentirem cheias mas 'brilhantes' por adquirirem tanta informação. Aí começarão a sentir que pensam, que se movem sem na realidade se moverem. E serão felizes, porque factos dessa natureza não mudam. Evite-se dar-lhes matérias escorregadias como Filosofia ou Sociologia para que liguem umas coisas às outras. Esse é o caminho para a melancolia. (...)"
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2022-04-21
Fahrenheit 451 (p.74-75)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— Entenda que a nossa civilização é tão vasta que não podemos dar-nos ao luxo de termos as nossas minorias inquietas. Pergunte-se: o que é que, acima de tudo, queremos neste país? Queremos ser felizes, não é certo? Não foi o que ouviu toda a sua vida? Eu quero ser feliz, diz toda a gente. Bem, e não são? Não lhes damos oportunidade de andarem de um lado para o outro, de se divertirem? É só para isso que vivemos, não é? Para o prazer, a excitação. E tem de admitir que a nossa cultura é generosa na oferta de ambos."
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2022-04-20
Fahrenheit 451 (p.73)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— (...) As pessoas neste livro, nesta peça, nesta série de televisão não representam verdadeiramente quaisquer pintores, cartógrafos ou mecânicos que possam viver em alguma parte. Quanto maior o mercado, Montag, menor a margem para controvérsia: lembre-se disso! Todas as minorias, as mais pequenas e menores minorias, têm de ter o umbigo bem lavado e limpo. Autores, cheios de pensamentos perniciosos nas vossas cabeças, fechem à chave as vossas máquinas de escrever! E eles fecharam-nas. As revistas tornaram-se numa agradável papa de baunilha e tapioca. Os livros, segundo afirmavam esses malditos críticos snobes, não passavam de água de loiça suja. Não admirava que tivessem deixado de se vender, diziam os críticos. Mas o público, sabendo o que queria, a saltitar de alegria, lá manteve as revistas de banda desenhada. E as revistas tridimensiionais de sexo, claro. E aí tem, Montag: não foi uma decisão governamental. Não houve uma ordem, uma declaração, um ato de censura, nada disso! A tecnologia, a exploração massificada e a pressão das minorias fizeram tudo sem qualquer ajuda. Hoje, graças a elas, pode manter-se feliz o tempo todo, pode ler banda desenhada, revistas de mexericos ou jornais especializados."
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2022-04-19
Fahrenheit 451 (p.70-71)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— Imagine. O homem do século XIX, com os seus cavalos, os seus cães, as suas charretes, o seu movimento lento. Então, no século XX, a imagem torna-se mais acelerada. Os livros ficam mais curtos. Condensações Resumos. Tabloides. Tudo se orienta para a piada, o fim abrupto.
(...) — Os clássicos eram agora programas de rádio de quinze minutos, e cortados de novo para caberem num segmento sobre livros com dois minutos, acabando, finalmente, por se resumirem a dez ou doze linhas numa entrada de dicionário. Estou a exagerar, é claro. Os dicionários serviam para referência. Mas havia muita gente para quem o único conhecimento que tinham do Hamlet (...) se limitava a um resumo de uma página num livro que se fizesse anunciar com a frase: 'Agora pode finalmente ler todos os clássicos e manter-se a par dos seus vizinhos'. Está a ver? Do berçário à universidade e de volta ao berçário: eis o padrão intelectual dos últimos cinco séculos ou mais. (...) — Aceleremos o filme, Montag! Rápido! Clique, imagem, olhe, olho, agora, toque, aqui, ali, rápido, vá, acima, abaixo, dentro, fora, porquê, como, quem, o quê, onde, hã?, ah!, zás!, trás!, bing, bong, bang!, bum! Tudo digerido, resumido, digerido-resumido. Política? Uma coluna, duas frases, um título! E depois, de repente, tudo desaparece! A mente dos homens anda a tal velocidade neste carrossel movido pelas mãos dos editores, exploradores e radiodifusores que, nesse movimento centrífugo, se perde tudo o que seja pensamento, considerado desnecessário, uma pedra de tempo! (...) — O tempo de escola é encurtado, a disciplina é aligeirada, deixa-se de estudar Filosofia, História, línguas, até que a própria ortografia vai sendo gradualmente negligenciada até acabar por ser ignorada por completo. A vida é o imediato, o emprego é o que conta, e depois do trabalho venham os prazeres. Porquê aprender algo que não se limite a carregar em botões, ligar e desligar interruptores, apertar porcas e parafusos?" |
2022-04-18
Fahrenheit 451 (p.67)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"— (...) Ontem à noite pensei em todo o querosene que usei nos últimos dez anos. E pensei em livros. E, pela primeira vez, apercebi-me de que por detrás de cada um desses livros está um homem. Um homem que teve de pensar neles. Um homem que teve de fixá-los em papel durante muito tempo. E nunca antes me tinha ocorrido isso.
Levantou-se da cama. — Um homem levou uma vida inteira a anotar os seus pensamentos, a observar o mundo e a vida, e depois chego eu e em dois minutos, zás!, tudo acabado." |
2022-04-17
Fahrenheit 451 (p.59)
| Ray Bradbury Fahrenheit 451 (1953) (trad. Casimiro da Piedade)
"(...) E lembrou-se de ter pensado então que, se ela morresse, não choraria: seria apenas a morte de alguém estranho, um rosto na multidão das ruas, um rosto vislumbrado num jornal. E aquilo pareceu-lhe tão errado que começou a chorar, não perante a possibilidade da morte dela mas perante o facto de não chorar por causa dessa morte, um homem vazio e tonto ali junto a uma mulher vazia e tonta, enquanto a cobra voraz a esvaziava ainda mais.
«Como é que alguém fica tão vazio?», perguntou-se. Quem nos esvazia desta forma? (...)" |
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