| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) O meu coração batia com tamanha violência que, desta vez, agora sim, poderia ter decidido que estava doente. Pelo contrário, sentia-me cheio de energia selvagem, pronto para o momento supremo.
Ela surgiu à minha frente, parou, surpreendida. Perguntei-lhe: É aqui que mora o Vanzetti? Ela respondeu que não. Eu disse obrigado, desculpa, enganei-me. E fui-me embora. O Vanzetti (quem seria ele?) foi o primeiro nome que, tomado pelo pânico, me veio à cabeça. Depois, à noite, convenci-me de que era justo que as coisas se tivessem passado daquela forma. Tinha sido a última astúcia. Se ela tivesse desatado a rir, se me tivesse dito o que é que te passou pela cabeça, és muito querido, agradeço-te, mas, sabes, tenho mais em que pensar, o que é que eu teria feito? Tê-la-ia esquecido? A humilhação ter-me-ia levado a julgá-la uma parva? Ter-me-ia colado a ela como um adesivo durante os dias e meses seguintes, pedinchando uma segunda oportunidade, tornando-me o bobo da corte do liceu? Ao calar-me, pelo contrário, tinha guardado tudo aquilo que já tinha, e não perdera nada." |
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2014-06-02
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.378)
2014-06-01
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.366)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"Sou um ser excepcional exilado entre os filisteus. Fecho-me ainda mais orgulhosamente na minha solidão."
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2014-05-31
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.357)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"Fito aqueles olhos pintados para não ver os seus seios, depois o olhar desloca-se, são (creio eu) os primeiros seios da minha vida, pois não o eram aquelas coisas amplas e flácidas das calmucas á poil.
Uma vaga de mel percorre-me as veias, sinto um gosto azedo no funda da garganta, uma pressão na testa, um delíquio nas virilhas. Levanto-me assustado e algo húmido, perguntando-me que terrível doença me terá acometido, deliciado com aquela liquefacção num caldo primordial. Creio que foi a minha primeira ejaculação: penso que é uma coisa mais proibida do que cortar a garganta a um alemão. Pequei de novo, naquela noite no Vallone, por ser testemunha muda do mistério da morte, agora, por ser o intruso que penetrou os mistérios proibidos da vida." |
2014-05-30
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.287-288)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) Morrer significa subtrair-se ao ciclo da vida e às palpitações do coração. Por mais infernal que seja o Inferno, saberia ver a uma distância sideral aquilo que fui. O Inferno não é sermos esfolados no pez a ferver. Contemplamos o mal que fizemos, nunca mais poderemos ver-nos livres dele, e sabemos disso. Mas seríamos puro espírito. (...)"
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2014-05-29
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.270)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) Tinhas sido gentil e ela agradecia-te. Já te disse, elas já eram mulheres, a nós nem nos ligavam.
- Mesmo eu tendo sido o herói do espectáculo no liceu? - Pois é, achas que as mulheres se apaixonam pelo Jerry Lewis? Achavam-te um bom actor, mais nada." |
2014-05-28
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.256)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"Seriam narcisos? Sei lá, mais uma vez é a palavra que manifesta o seu poder, não a imagem. Diz-se que temos dois hemisférios no cérebro, o esquerdo preside às relações racionais e à linguagem verbal, o direito toma conta das emoções e do universo visual. Talvez se me tivesse paralisado o hemisfério direito. Mas não, porque lá estava eu a morrer de definhamento em busca de algo, e a busca é uma paixão, não um prato que se come frio como a vingança."
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2014-05-27
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.236)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) Lemos em criança uma história qualquer, depois deixamo-la crescer na memória, transformamo-la, sublimamo-la, e podemos eleger como mito um caso sem qualquer substância. (...)"
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2014-05-26
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.235)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) tinha finalmente vindo parar às minhas mãos algo que me fizera sentir à beira de uma revelação final. O livro, de capa policromática, intitulava-se A misteriosa chama da rainha Loana. Ali estava a explicação das misteriosas chamas que me tinham agitado ao acordar, e a viagem a Solara adquiria finalmente um sentido."
"Aliás, como já tinha visto noutras bandas desenhadas, tanto as mulheres fatais como os machos satânicos de serviço (como Ming em relação a Dale Arden), nunca queriam possuir, violar, aprisionar no seu harém, ter relações carnais com o objecto do seu desejo. Queriam sempre casar-se com ele. Hipocrisia protestante dos originais americanos, ou excesso de pudor imposto aos tradutores italianos por um governo católico empenhado numa batalha demográfica?" |
2014-05-25
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.232)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) Devia certamente ter formado, através das muitas imagens que me tinham enlevado, uma figura ideal: se pudesse ter à minha frente todos os rostos das mulheres que amara, poderia tirar deles um perfil arquetípico, uma Ideia nunca alcançada mas perseguida ao longo de toda a vida. (...)"
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2014-05-24
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.229-230)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"Não é credível que Mario tivesse intenções maliciosas, especialmente num momento daqueles. Mas Gemmy, como todas as heroínas de banda desenhada, estava vestida com uma túnica macia, uma espécie de peplo, que deixava a descoberto os ombros, os braços e parte do peito. Tal como documentavam os quatro quadradinhos dedicados à fuga e ao salto perigoso, é sabido, os peplos, em especial quando sedosos, levantam-se primeiro acima do tornozelo, depois acima da barriga da perna, e se uma mulher estiver agarrada ao pescoço de um Vanguardista e estiver com medo, esse agarrar só se pode transformar num abraço espasmódico, com a face dela, certamente perfumada, contra a nuca transpirada dele. Assim sendo, no quarto quadradinho Mario agarrava-se a um ramo da eufórbia, preocupado tão-só em não cair nas mãos do inimigo, mas Gemmy, já segura, abandonava-se e, como se a saia tivesse uma racha, a perna esquerda estendia-se já nua até ao joelho, deixando a descoberto a bela barriga da perna, que um salto fino tornava mais elegante e esbelta, enquanto que da perna direita se via apenas o tornozelo - mas como, provocatoriamente, esta se levantava em ângulo recto para a coxa estendida, o vestido (talvez pelo efeito do vento quente das ambas) aderia humidamente ao seu corpo, de forma a tornar evidente tanto a curva das nádegas como os contornos de toda a perna. É impensável que o desenhador não tivesse consciência do efeito erótico que estava a criar, e certamente ter-se-á inspirado nalguns modelos cinematográficos, ou mesmo nas mulheres de Gordon, sempre cingidas em vestidos muito justos cravejados de pedras preciosas."
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2014-05-23
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.228-229)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"Já não conseguia largar aquelas capas e aqueles quadradinhos. Era como estar numa party, e ter a impressão de reconhecer toda a gente, sentindo uma sensação de déjà vu perante cada cara encontrada, mas sem poder dizer quando é que a conhecemos e a quem pertencia - e com a tentação de exclamar a cada momento como vai meu velho, estendendo a mão, mas logo retraindo-a com receio de estar a cometer uma gaffe.
É embaraçoso revisitar um mundo aonde se vai parar pela primeira vez: é como sentir-se de regresso a uma casa alheia." |
2014-05-22
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.225)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) É claro que nestes livrinhos de gramática duvidosa eu encontrava heróis diferentes dos que me tinham sido propostos pela cultura oficial, e talvez naquelas bandas desenhadas de cores vulgares (mas tão hipnóticas!) tivesse sido iniciado numa visão diferente do Bem e do Mal."
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2014-05-21
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.212)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) Chegado a este ponto, porquê tentar recordar? A memória é uma solução atabalhoada para os humanos, para os quais o tempo corre e aquilo que passa é passado. (...)"
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2014-05-20
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.201)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) As crianças são lambe-botas. E tu também eras. Querias apenas merecer uma boa nota e escrevias aquilo que agradava ao professor. Parafraseando Totò, que sempre definiste como um mestre de vida: nasce-se lambe-botas, e eu modestamente nasci."
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2014-05-19
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.200-201)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) Mas, desculpa, deixa-me armar em psicóloga: uma criança pode viver em mundos diferentes, como fazem os nossos netos, que aprendem a ligar a televisão e vêem o telejornal, e que depois pedem que lhes contemos histórias e folheiam livros ilustrados com monstros verdes e olhos bons e lobos que falam. (...) As crianças são muito mais equilibradas do que nós, distinguem perfeitamente a fábula da realidade, mantêm um pé deste lado e outro do outro, mas nunca se enganam, (...)"
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2014-05-18
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.198)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"Uma das primeiras histórias verdadeiramente minhas, não a repetição de clichés escolares, nem a evocação de algum bom romance de aventuras. A comédia de uma letra que ficou por pagar. (...)
Tinha passado a ser o narrador de um falhanço, do qual representava o frangível correlativo objectivo. Tinha passado a ser existencial, embora ironicamente, amargo, radicalmente céptico, impermeável a qualquer ilusão." |
2014-05-17
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.197)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) Certamente uma mulher inteligente (talvez a adorássemos, pois ao ler aquelas mensagens a vermelho eu sentia que devia ser jovem e bonita e, só Deus sabe porquê, que gostava de junquilhos), que procurava levar-nos a sermos sinceros e originais."
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2014-05-16
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.196)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) «O que significa morrer? É a palavra, habitualmente, que mete medo. Agora que está a morrer, e que sabe que está, não sente nem calor, nem frio, nem dor.» Só sabe que cumpriu o seu dever e que a loma que conquistou terá o seu nome."
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2014-05-15
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.195)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) os meus antepassados tinham sido educados no sentido de conceberem o amor pela terra como tributo de sangue, e de não ficarem horrorizados, antes pelo contrário, de se excitarem perante um campo inundado de sangue. (...)
(...) Nada incita mais ao holocausto do que o rancor provocado por uma derrota. Assim, ensinavam-nos a viver, pais e filhos, relatando-nos como era bom morrer." |
2014-05-14
A Misteriosa Chama da Rainha Loana (p.194)
| Umberto Eco La Misteriosa Flamma Della Regina Loana (2004) (trad. Simonetta Neto)
"(...) tinham nascido e crescido num clima nacionalista em que se cantavam hinos ao primeiro conflito mundial como a um banho purificador, e não diziam os futuristas que a guerra era a única higiéne do mundo?"
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