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2025-08-27

Sobre a Brevidade da Vida (p. 29)

Séneca
De brevitate vitae (49)
(trad. Romão Cunha)


"(...) Existem famílias e intelectos nobres: escolhe aquela pela qual queres ser adotado, e não herdarás só o nome, mas também todos os bens dela. Bens que não terás de guardar miseravelmente: eles crescerão à medida que forem partilhados e guiar-te-ão à imortalidade, a alturas onde ninguém jamais foi rebaixado. Esta é a única maneira de prolongar a mortalidade — até que converta em imortalidade. (...)"

2016-08-03

Cronica do Pássaro de Corda (p.36-37)

Haruki Murakami
The Wind-Up Bird Chronicle (ねじまき鳥クロニクル Nejimakitori Kuronikuru) (1994)
(trad. Maria João Lourenço)


"(...) Se calhar, encontrava-me no limiar de um mundo, mundo esse habitado unicamente por Kumiko e que me era totalmente desconhecido. Aos meus olhos, via-o como um quarto enorme e escuro. Eu andava pelo quarto com um isqueiro minúsculo na mão. Mas a chama do isqueiro só me deixava ver uma ínfima parte da divisão.
Conseguiria ver alguma vez o resto? Ou envelheceria e morreria sem chegar a conhecê-la bem? Se era esse o caso, que sentido tinha a minha vida de casado? Que sentido faria a minha vida, uma vez que vivia e dormia na mesma cama com uma estranha?"

2016-08-01

Crónica do Pássaro de Corda (p.29)

Haruki Murakami
The Wind-Up Bird Chronicle (ねじまき鳥クロニクル Nejimakitori Kuronikuru) (1994)
(trad. Maria João Lourenço)


"Pergunto-me até que ponto será possível um ser humano conhecer outro ser humano a fundo.
O esforço sincero no sentido de conhecer alguém implica da nossa parte investir nessa tarefa tempo e energia, mas, vendo bem, em que medida é que ficamos a conhecer a sua verdadeira essência? Estamos convencidos de que conhecemos a outra pessoa bem, mas saberemos verdadeiramente o que importa acerca dela?"

2016-07-30

Crónica do Pássaro de Corda (p.8)

Haruki Murakami
The Wind-Up Bird Chronicle (ねじまき鳥クロニクル Nejimakitori Kuronikuru) (1994)
(trad. Maria João Lourenço)


"«Entender-nos»? Enquanto comia, dei por mim a pensar. Entendermos os sentimentos um do outro em dez minutos? O que quereria ela dizer com aquilo? Se calhar era apenas uma partida, Ou uma nova técnica de vendas. Em todo o caso, não era coisa que me dissesse respeito.
Quando acabei de comer, voltei a deitar-me no sofá da sala e a pegar no livro que tinha trazido da biblioteca, deitando volta e meia uma olhadela ao telefone. As palavras da mulher não me saíam da cabeça. O que poderiam duas pessoas ficar a saber uma acerca da outra em dez minutos? Agora que pensava nisso, ela parecia muito senhora de si: desde a primeira hora que fizera questão de indicar o tempo preciso. Como se nove minutos não chegassem e onze minutos fosse demasiado. Precisamente como o tempo de cozedura do esparguete."

2016-07-19

Elogio da Loucura (p.136)

Erasmo de Roterdão
Stultitiae Laus (1509-1511)
(trad. Álvaro Ribeiro)


[LXV]

"Eis também porque Deus, quando terminou a arquitectura da orbe, proibiu ao homem que comesse o fruto da árvore da ciência, como se a ciência envenenasse a felicidade. (...)"

2016-06-16

Elogio da Loucura (p.26-27)

Erasmo de Roterdão
Stultitiae Laus (1509-1511)
(trad. Álvaro Ribeiro)


[XIV]

"(...) Eu restituo ao próprio homem a época mais feliz da sua vida. Se os mortais decidissem desiludir-se do amor pela Sofia, e preferissem o comércio com a Folia, nenhum deles chegaria a velho, todos gozariam a felicidade da juventude perpétua. (...) Sofre assim a vida dos homens, porque eles não são perfeitos. Um testemunho de peso é o provérbio vulgar que diz ser a loucura a única coisa que detém a fugacíssima juventude e que afasta a incómoda senectude. (...)"

2016-04-20

O Mundo de Sofia (p.272)

Jostein Gaarder
Sofies Verden (1995)
(trad. Catarina Belo)


"(...) quando Sofia e Alberto conhecessem toda a verdade, estariam de certo modo no fim da viagem.
Hilde quase ficara engasgada com um grande bocado de batata na garganta quando se apercebeu de que a mesma hipótese podia ser válida para o seu próprio mundo. Os homens tinham sem dúvida chegado cada vez mais longe na compreensão das leis da natureza. Mas poderia a história continuar quando a filosofia e a ciência tivessem colocado as últimas peças do puzzle no local respectivo? Ou a história da humanidade aproximar-se-ia do fim? Não haveria uma relação entre o desenvolvimento do pensamento e da ciência por um lado, e realidades como o efeito de estufa e as florestas tropicais desarborizadas por outro? Talvez não fosse estúpido designar o desejo de conhecimento do homem por «pecado original»."

2016-01-18

Os Passos em Volta (p.109)

Herberto Hélder
Os Passos em Volta (1963)

[COMO SE VAI PARA SINGAPURA]

"(...) E desembarco, há uma qualquer experiência surpreendente, caminho para o conhecimento. Consigo agarrar essa meada ainda irreconhecível: a maneira como tudo se enreda em tudo. Desabituei-me dos milagres. Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações. (...)"

2015-05-12

A Vida e Opiniões de Tristram Shandy (p.230)

Laurence Sterne
The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gent. (1759-1761)
(trad. Manuel Portela)


"--O Sr.Shandy meu pai, Senhor, não era capaz de ver coisa alguma à luz a que os outros a viam;--colocava as coisas à sua própria luz;--não pesava coisa alguma nas balanças vulgares;--não,----era um investigador demasiado refinado para estar sujeito a tão bruta imposição.--Para se chegar ao peso exacto das coisas na balança científica, o ponto de apoio, dizia ele, devia ser quase invisível, para evitar a fricção dos dogmas populares;--sem isso as minúcias da filosofia, que fazem sempre pender a balança, não teriam peso algum. O conhecimento, tal como a matéria, afirmava ele, era divisível in infinitum;--os grãos e os escrúpulos eram parte tão importante do conhecimento como a gravitação o era para o mundo inteiro.--Numa palavra, dizia ele, erro era erro,--pouco importava onde estivesse,--fosse numa fracção,--numa libra,--era sempre fatal para a verdade, que tão inevitavelmente ficava lá no fundo do seu poço pelo erro de um grão de pó na asa de uma borboleta,--como no disco do Sol, da Lua, e de todas as estrelas do céu juntas."

2015-04-25

A Vida e Opiniões de Tristram Shandy (p.160)

Laurence Sterne
The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gent. (1759-1761)
(trad. Manuel Portela)


"Mas o desejo de conhecimento, como a sede de riqueza, aumenta com a aquisição. (...)"

2015-03-06

A Obra ao Negro (p.146)

Marguerite Yourcenar
L'Oeuvre au Noir (1968)
(trad. António Ramos Rosa, Luísa Neto Jorge e Manuel João Gomes)


"(...) lera em Nicolau Flamel a descrição do opus nigrum, essa tentativa de calcinação e dissolução das formas, que é a parte mais difícil da Grande Obra. (...) A experiência, que se julgava poder confinar à oficina, estendera-se a tudo. Poder-se-ía daí concluir que as fases subsequentes da aventura alquímica fossem algo mais do que sonho e que também ele viria alguma vez a conhecer a pureza ascética da Obra ao Branco, seguida do triunfo conjugado do espírito e dos sentidos, que é a característica da Obra ao Rubro? Do mais fundo da brecha nascia uma Quimera. (...)"

2015-03-04

A Obra ao Negro (p.144)

Marguerite Yourcenar
L'Oeuvre au Noir (1968)
(trad. António Ramos Rosa, Luísa Neto Jorge e Manuel João Gomes)


"Servia-se, há quase meio século, do seu espírito como de uma cunha feita para largar mais os interstícios do muro que de todos os lados nos confina. Aumentavam as fendas ou talvez fosse a parede que, pelos vistos, perdia a própria solidez, sem, no entanto, deixar de ser opaca, como se se tratasse de uma muralha de fumo, em vez de uma muralha de pedra. (...)"

2015-03-03

A Obra ao Negro (p.134)

Marguerite Yourcenar
L'Oeuvre au Noir (1968)
(trad. António Ramos Rosa, Luísa Neto Jorge e Manuel João Gomes)


"(...) Este filósofo que procurava abarcar no seu todo o entendimento humano, via, subjacente a ele, uma massa submetida a curvas calculáveis, estriada por correntes cujo mapa seria fácil de traçar, de fundas pregas cavada, pelas massas de ar e a pesada inércia das águas. Acontecia, com estas figuras assumidas pelo espírito, o mesmo que com aquelas formas nascidas das águas indiferenciadas, ora associando-se ora revezando-se, à superfície do pego; cada um dos conceitos acabava por se desfazer no seu próprio contrário, da mesma guisa que duas vagas, ao tocarem-se, se aniquilam numa só e mesma branca espuma. (...)"

2015-02-22

A Obra ao Negro (p.99)

Marguerite Yourcenar
L'Oeuvre au Noir (1968)
(trad. António Ramos Rosa, Luísa Neto Jorge e Manuel João Gomes)


"(...) Já percorri grande parte desta bola onde vivemos; estudei o ponto de fusão dos metais e a germinação das plantas; observei os astros e examinei o interior dos corpos. Sou capaz de extrair, deste tição que aqui está, a noção de peso, e destas chamas a noção de calor. Sei que não sei aquilo que não sei; invejo aqueles que venham a saber mais, mas sei que, tal como eu, terão que medir, pesar, deduzir e desconfiar das deduções alcançadas, distinguir o que há de falso no verdadeiro e levar em conta a eterna mistura da verdade e da falsidade. Nunca me agarrei firmemente a uma ideia, por temer a confusão em que, sem ela, poderia vir a cair. Nunca temperei um facto verdadeiro com o molho da mentira, para me facilitar a digestão. Nunca deformei os pontos de vista do adversário para mais facilmente ter razão, (...). Ou talvez sim: surpreendi-me nesse acto, mas sempre me repreendi como se repreende um criado desonesto, confiando apenas na promessa que a mim mesmo fiz de vir a proceder melhor. Sonhei com os meus sonhos; não considero tudo isto mais do que sonhos. Abstive-me sempre de fazer da verdade um ídolo, preferindo designá-la pelo nome mais humilde de exactidão. Os triunfos e os perigos que acumulei não são aquilo que se pensa: existem outras glórias para além da glória e outras chamas para além das da fogueira. Consegui, praticamente, desafiar as palavras. Hei-de morrer um pouco menos estúpido do que nasci."

2015-02-07

A Obra ao Negro (p.16-17)

Marguerite Yourcenar
L'Oeuvre au Noir (1968)
(trad. António Ramos Rosa, Luísa Neto Jorge e Manuel João Gomes)


"- Tenho dezasseis anos - escusou-se Henrique Maximiliano. - Dentro de quinze, já se poderá ver se por acaso serei igual a Alexandre. Dentro de trinta, saber-se-á se valho ou não o defunto César. Pois irei eu passar uma vida inteira a medir pano numa loja da Rua das Lãs? Trata-se de ser ou não um homem.
- Tenho vinte anos - calculou Zenão. - Se tudo correr pelo melhor, tenho à minha frente cinquenta anos de estudo, antes que este meu crânio se transforme em caveira. Ide procurar heróis e devaneios em Plutarco, irmão Henrique. A questão, para mim, é ser mais do que um homem.
(...)
Calaram-se. A estrada plana, ladeada de choupos, apresentava, à sua frente, um fragmento livre do universo. O aventureiro do poder e o aventureiro do saber caminhavam lado a lado.
- Vede - prosseguiu Zenão. - Para lá desta aldeia, há outras aldeias, para lá desta abadia, outras abadias, para lá desta fortaleza, outras fortalezas. E no interior de cada castelo de ideias, de cada pardieiro de opiniões sobrepostas aos pardieiros de madeira e aos castelos de pedra, a vida empareda os loucos e abre uma fresta aos sábios. (...) E, por toda a parte, vales onde se recolhem os simples, rochas onde se escondem os metais, cada um dos quais simboliza um momento da Grande Obra, engrimanços colocados entre os dentes dos mortos, deuses cada qual com a sua promessa pessoal, multidões em que cada homem se apresenta como centro do universo. Quem pode haver tão insensato que se deixe morrer sem ter dado, pelo menos, uma volta à sua prisão? Como vedes, irmão Henrique, sou na verdade um peregrino. Longo é o caminho, mas eu sou jovem."

2014-12-17

O Jogo das Contas de Vidro (p.353-354)

Hermann Hesse
Das Glasperlenspiel (1943)
(trad. Carlos Leite)


"E como, encandeado com as visões,
Do livro erguesse os olhos para descansar,
Vi que não era ali o único visitante.
Na sala estava um ancião contemplando
Os livros, talvez fosse o bibliotecário
Que eu via na diligência do seu trabalho,
Ocupado com os livros, e assaltar-me a curiosidade
De conhecer esse trabalho zeloso
E que sentido tinha. Este homem velho,
Assim o vi, com a mão engelhada e terna
Pegou num livro, leu o que na lombada
Estava escrito, sussurrou com os lábios pálidos
O título - um título entusiasmante,
Prometedor de preciosas horas de leitura! -
Apagou-o com os dedos, ao de leve,
Escreveu sorrindo um novo título,
Completamente diferente, e em seguida
Continuou a andar, tirando um livro aqui,
Outro mais além, apagando os títulos
E escrevendo outros.
Confuso observei-o longamente e voltei,
Já que a minha razão se recusava a entender,
Ao meu livro, onde pouco antes algumas linhas
Tinha lido; mas a sequência das imagens
Que me encantava, já não encontrei,
Perdera-se e pareceu-me afastar-se
O mundo simbólico onde mal penetrara
E que tratava tão ricamente do sentido do mundo;
Vacilava esse mundo, corria em círculo, parecia turvar-se,
E ao dissipar-se nada mais deixou de si
Do que o brilho pardacento do pergaminho vazio.
No ombro senti então uma mão,
Ergui os olhos e vi ao meu lado
O diligente velho e levantei-me. Sorrindo
Ele pegou no meu livro, um arrepio percorreu-me
Como um calafrio, e o seu dedo deslizou
Como uma esponja por cima dele; no couro limpo
Escreveu novo título, perguntas e promessas,
E numa bela caligrafia, desenhando as letras,
Uma a uma a sua pena deu às mais velhas perguntas
Novas respostas. Depois levou consigo silenciosamente
O livro e a pena."

2014-12-16

O Jogo das Contas de Vidro (p.352)

Hermann Hesse
Das Glasperlenspiel (1943)
(trad. Carlos Leite)


"(...)
E cada livro em que me pegava mo confirmava:
Estava na Biblioteca do Paraíso;
Para todas as perguntas que sempre me atormentaram,
Para todas as sedes de saber que sempre me queimaram,
Estava aqui a resposta e para toda a fome
Guardado aqui o pão do espírito. Pois qualquer
Que fosse o volume a que lançasse um olhar rápido,
Todos tinham títulos cheios de promessas;
Todas as necessidades eram aqui contempladas,
Para serem abertos estavam aqui todos os frutos
Que jamais um aluno, temente, imaginou,
A que jamais um Mestre, ousando, estendeu a mão.
Estava aqui o sentido mais íntimo e mais puro;
Todas as sabedorias, poesias, ciências,
Estava aqui a força mágica de todas as interrogações,
A chave e o vocabulário, estava aqui a mais fina
Essência do espírito, aqui em inauditos
E secretos livros magistrais conservada.
As chaves penetravam toda a espécie
De perguntas e segredos e pertenciam àquele
A quem a graça da hora mágica as oferecia."

2014-08-02

A Montanha Mágica (p.68)

Thomas Mann
Der Zauberberg (1924)
(trad. Herbert Caro)


"(...) (Todo o caminho que trilhamos pela primeira vez é muito mais longo do que o mesmo caminho quando já o conhecemos). (...)"