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2015-04-14

BibliotecapessoaL (p.61-63)

José-Alberto Marques
BibliotecapessoaL (2014)

"Os livros pertencem aos autores
Os livros talvez pertençam ao meio por onde os autores passeiam
Os livros escritos e publicados são inertes e indefesos
Os livros escritos e publicados pertencem a todos e a ninguém
Os livros quaisquer livros são crianças que não sabem andar
Os livros todos os livros só andam de bengala
Os livros "quase" todos os livros precisam de uma prateleira

Os livros precisam dum primeiro encosto: um jornal
Os livros precisam dum segundo encosto: uma rádio ou várias
Os livros precisam dum terceiro encosto: um canal de televisão,
[aliás, todos
Os livros precisam dum quarto encosto: um google,
[twitter, facebook
Os livros precisam dum quinto encosto: uma família,
[um 5º império, nada
Os livros, afinal, não precisam de autor, mas dum nome de autor

(Os livros são, apenas, o que se escreveu em silêncio, no isolamento, na aprendizagem da solidão, no trabalho de escrever enquanto se tem os pés presos a correntes de ferro com bolas de chumbo.)

Os livros, livros, só existem na imaginação do leitor."

2015-04-13

BibliotecapessoaL (p.57-59)

José-Alberto Marques
BibliotecapessoaL (2014)

"Os filósofos falam do espaço e do tempo;
Os militares falam do espaço que é suficiente e do tempo limitado;
Os economistas falam do espaço de tempo
Para resolver as obrigações e do tempo
Que se cumpriu sem resultado e não há direito a retorno;
Os padres falam da nave central
Que se dirige ao altar e do pouco tempo que deus nos reserva
Para as orações copulativas, condicionais e finais;
Os sociólogos falam do longo longo tempo
Que fez manter etnias sem progresso para estudar o seu progresso
E do tempo que não obedeceu às suas reflexões;
Os psicólogos falam do tempo da correcção dos comportamentos
E do espaço dado aos comportamentos possíveis
Que escolhem para sinalizar nos media de alto share
Para guardar como medalha na arca da memória própria;
Os neuropatas falam do tempo que não coincide com o tempo
Dos clientes falantes e do espaço que «Medeia» considerou
O infinito do conhecimento;
Os professores falam do tempo em função do seu tempo
E do espaço exíguo que tiveram
Para passear a inteligência;

Os poetas falam do tempo que não existe
E da inexistência de espaço para escrever
O todo tanto do nada,
Sobretudo;
Os romancistas falam do tempo atirando a estória
Para os olhos, ouvidos, memória e inteligência do leitor
Precisamente porque jogam o espaço
Alongando as palavras iguais a palavras longas longas
Sem termo, mas com todo o significado e seu significante;
Os dramaturgos constroem o tempo
Através do corpo dos actores
E criam o espaço com a voz do silêncio dos espectadores;
Os museólogos ficam no princípio e no fim do seu tempo
A ouvir sons no espaço mais útil e inútil das suas ambições
Perdidas;"

2015-04-12

BibliotecapessoaL (p.53)


José-Alberto Marques
BibliotecapessoaL (2014)

"EU QUE ESCREVO COM A PARTE INTERIOR ENTRE UNHA E CARNE DO POLEGAR E INDICADOR DIGO: BOM DIA. ISTO VAI AQUECER PELA TARDE.AFINAL CHOVEU.BOA NOITE. O POETA É UM TRAIDOR."

2015-04-11

BibliotecapessoaL (p.49)

José-Alberto Marques
BibliotecapessoaL (2014)

"S. PARA RECOMEÇAR O PRIMEIRO BEIJO, O
[CONTACTO
   INICIAL DOS SEXOS, A ALEGORIA QUE AS
[PALAVRAS
   DA TIPOGRAPHIA NÃO COMPORTA,
[ESTAÇÃO SEM PASSAPORTE,
   VIANDANTE ESTRANGEIRO NA VIAGEM
[INESPERADA.
   LÁ DENTRO, O FENÓMENO.
T. E ISTO É O PRINCÍPIO DO FIM.
U. QUER SE QUEIRA OU NÃO."

2015-04-10

BibliotecapessoaL (p.47)

José-Alberto Marques
BibliotecapessoaL (2014)

"   (...)
M. HOJE O FILME É DRAMÁTICO. HÁ APENAS O
[SILÊNCIO.
N. AQUI MORA UM PEDAÇO DA CIDADE INÚTIL.
O. LOUCA É A VERTIGEM DOS HOMENS,
[VORAGEM É.
   PERDER O PRÓPRIO SONHO.
   (...)"

2015-04-09

BibliotecapessoaL (p.43)

José-Alberto Marques
BibliotecapessoaL (2014)

"A. Quando nasci quase quase antes ainda não
[tinha nascido.
   (...)
C. A MÁQUINA DE CORTAR PAPÉIS FOI A
[FÓRMULA MAIS
   INTELIGENTE DE CRIAR POEMAS.
   (...)
E. AS PAREDES NUNCA EXISTIRAM PARA SER
[BRANCAS,
   SÃO OS ÚNICOS ESPAÇOS ONDE OS POETAS
[LÊEM OS
   SEUS POEMAS E A REVOLUÇÃO BRANCA NO
[SEU OLHAR.
F. NÃO ERA PRECISO ACABAR. ERA PRECISO
[VIAJAR.
   (...)"

2015-04-08

BibliotecapessoaL (p.27)

José-Alberto Marques
BibliotecapessoaL (2014)

"Sumam-se. O poeta não tem virtudes, dons, lábios
[a propósito.
O poeta é o mais ignorante humano bípede, apenas
[tendo por igual,
O vento, os figos, aloendros,
As finíssimas estátuas de gelo da natureza quando
[o inverno é feroz,
Cheio de silêncio
E estaciona no oásis frio, no pequeno lado da
[estrada de pedra

Então deitamo-nos na terra e tocamos nela a nossa
[alma."

2015-04-07

BibliotecapessoaL (p.25)

José-Alberto Marques
BibliotecapessoaL (2014)

"(...)
As flores crescem exactamente dentro dos leitores.

(...)"

2015-04-06

BibliotecapessoaL (p.21)

José-Alberto Marques
BibliotecapessoaL (2014)

"(...)
Dizem as palavras dos livros, se há livros, que são
[habitadas de símbolos,
É mentira,
São cartazes, ou espelhos mastigados
Que sabem a cor do vento."

2015-04-05

BibliotecapessoaL (p.19)

José-Alberto Marques
BibliotecapessoaL (2014)

"Fujam. Que fazem aqui a meu lado os poetas que amei.

Saiam da frente, escondam-se nas prisões,
Nos jardins nocturnos, nos cemitérios de luxo.
Levem, a correr, os poemas que estão a escrever.
Deitem-se no chão para serem pisados
Por estas plantas que hão-de crescer ao lado
Da vossa eternidade."