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2022-04-29

Fahrenheit 451 (p.162)

Ray Bradbury
Fahrenheit 451 (1953)
(trad. Casimiro da Piedade)


"Aqule fogo não ardia; aquecia.
Viu muitas mãos que se aqueciam junto a ele, mãos sem braços, escondidas na escuridão. Acima das mãos, rostos imóveis a que apenas a luz e a ondulação do fogo davam uma aparência de movimento. Não sabia que o fogo podia ter aquele aspeto. Nunca na sua vida fizera ideia de que o fogo, além de tirar, podia dar também. Até o seu cheiro era diferente."

2018-02-18

Crónica do Pássaro de Corda (p.396)

Haruki Murakami
The Wind-Up Bird Chronicle (ねじまき鳥クロニクル Nejimakitori Kuronikuru) (1994)
(trad. Maria João Lourenço)


"Fiquei a ler sentado na varanda, sempre com o gato ao meu lado, até ser noite. Cavala dormia profundamente, como se estivesse a recuperar de alguma coisa. A sua respiração lembrava um fole a trabalhar ao longe, e o seu corpo subia e descia lentamente, ao compasso da respiração. De vez em quando esticava o braço e tocava naquele corpinho cálido como que para ter a certeza de que ele estava realmente ali. Que maravilha, saber que bastava estender o braço para tocar qualquer coisa viva, sentir calor ao alcance da mão. Não me dera conta disso, mas a verdade é que há muito tempo que não sabia o que era essa sensação."

2018-02-17

Crónica do Pássaro de Corda (p.395)

Haruki Murakami
The Wind-Up Bird Chronicle (ねじまき鳥クロニクル Nejimakitori Kuronikuru) (1994)
(trad. Maria João Lourenço)


"(...) A verdade, porém, é que a simples presença nos meus joelhos daquele animal pequeno e meigo, profundamente adormecido e confiante, me tocava fundo. Pus a mão sobre o peito dele e senti o seu coração palpitar. Os batimentos eram leves e distantes. O seu coração, igual ao meu, marcava incessantemente o tempo, sem tréguas."

2016-10-27

Crónica do Pássaro de Corda (p.116-117)

Haruki Murakami
The Wind-Up Bird Chronicle (ねじまき鳥クロニクル Nejimakitori Kuronikuru) (1994)
(trad. Maria João Lourenço)


"- O problema é agora - disse ela. - Não amanhã, na semana que vem ou no próximo mês. É agora que a electricidade me faz falta.
Parecia ter realmente necessidade de que alguém a abraçasse, e foi isso mesmo que eu fiz, pondo os braços à volta dela. Tive uma sensação muito estranha. Para mim, ela não passava de uma colega, eficiente e simpática. Trabalhávamos na mesma sala, trocávamos piadas, e quando calhava íamos beber qualquer coisa juntos. Mas, longe do trabalho, naquele apartamento, com ela nos meus braços, o seu corpo mais não era do que uma massa de carne tépida. No fim de contas, pensei, limitamo-nos a representar o papel que nos foi atribuído no cenário da nossa vida profissional. Uma vez fora do cenário, tiradas as máscaras que dão corpo às personagens que interpretamos, não passávamos de pedaços de carne, petrificados de angústia e vergonha. Simples pedaços de carne tépida dotados de esqueleto, aparelho digestivo, coração, cérebro, sexo. Pus os braços em redor das suas costas, e ela apertou com força os seios contra o meu peito. Eram maiores e mais macios do que eu imaginava. Eu continuava sentado no chão com as costas apoiadas à parede, ela estava toda encostada a mim. Deixámo-nos ficar assim, sem mudar de posição nem trocar uma palavra, durante muito tempo."